Há alguns meses estive jogando um jogo chamado Stray, que é um jogo em que um gato cai em um buraco gigante que se segue por grandes túneis, onde há um mundo habitado por robôs humanóides e roedores vilões dentro de um cenário Pós - apocalíptico. Com total ausência de humanos de carne e osso, segue a jornada do gato na tentativa de voltar à superfície com ajuda de um drone com inteligência artificial. A jornada desse drone coadjuvante com os fragmentos de uma memória humana real põe essa máquina a resgatar - aos poucos - sua memória de quando estava em vida no corpo biológico. As máquinas, em geral, nesse ambiente fictício adotam os comportamentos humanos e, em um final de sacrifício, o drone opta por se destruir para criar passagem à superfície para todos que estavam presos no subsolo (Deixo Spoiler, pois provavelmente você não irá jogar, creio).
À parte do enredo, acerca da foto, pedi à inteligência artificial para trazer, detalhadamente, cada característica em um dos últimos encontros com meu amigo em uma noite, já tarde. Desde a calçada, os chinelos no paralelepípedo, as roupas, o cigarro, a lata de Brahma vermelha, a roupa preta e o condomínio (onde ele morava).
Não consegui trazer a fidelidade dos rostos por limitações da IA. Ela transmitiu muito mais do que eu precisei de uma imagem, que salvou como a foto que eu queria ter clicado com alguém que escolheu partir sem passagem de volta. Dentre tantas lacunas e perdas, qualquer reconstrução não é nada simpática, apesar dos sorrisos. Não há nada que nos faça referência desse modo específico no mundo de como éramos vistos por quem se foi. Essa não é uma lembrança a ser deixada no mero esquecimento como qualquer outra lembrança.
Não voltará esse amigo que atende o telefone em um momento difícil, com uma conversa com uma complexidade de filosofia, com o não banal e, não menos importante, o banal naquilo em que tudo pode ter a devida grande importância em que a vida estabelece que se tenha importância. Não voltará a cerveja, a carteira dunhill com o isqueiro BIC, os sorrisos e as músicas. Com a IA, assim como o drone do Stray, espero que, mesmo em tempos de abstinência de contato real, não percamos os meandros do que não nos faça sermos substituídos por máquinas. Aquém de uma mensagem de final feliz , as perdas com legados também nos permitirão continuar nas estradas sem que a única opção viável seja o botão de “autodesliga”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário